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Lugar de centroavante

Luis Fernando Verissimo

No vestiário o velho centroavante reclamou:

- Não está chegando. Não está chegando.

Queria dizer que a bola não estava chegando nele, lá na frente. Que passara todo o primeiro tempo isolado, de costas para o gol adversário, esperando uma bola que não chegava. Que nunca chegava.

- Assim não vai dar.

Querendo dizer que se não recebesse a bola não poderia fazer gol, decidir a partida, garantir o bicho de todo mundo. Enfim, exercer o seu oficio.

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O Adrianinho tinha sido contratado pelo clube havia pouco tempo e já era ídolo. Jogava no meio do campo e jogava bonito. Dominava a bola bonito e ia pra cima do adversário. Era comum passar por três, por quatro, e se perdia a bola para o quinto era porque não tinha para quem passar.

- Esse aí – disse, apontando para o velho centroavante – fica escondido lá na frente...

Silêncio no vestiário. Todos os olhos no velho centroavante.

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- Eu fico o quê?

- Escondido. Eu olho, olho e não vejo você. Vou passar a bola pra quem?

O velho centroavante se levantou. Não era comum se levantar durante o intervalo. Geralmente era o primeiro a se atirar num banco quando o time entrava no vestiário e o último a se levantar quando o time voltava para o campo. Mas se levantou para encarar o Adrianinho.

Encarar, não. Era mais alto. Disse para o topo da cabeça do Adrianinho:

- Olha aqui, seu veado...

- Calma – pediu o treinador.

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- Você não me vê porque não passou a bola quando tinha que passar. Porque ficou fazendo frescura no meio do campo até eu ficar cercado. Porque quis entrar driblando em vez de me lançar.

- Entro driblando porque você não se apresenta. Está sempre metido ali no meio. Quem não se desloca não aparece.

Era demais. Um merdinha daqueles fazendo frase. E pra cima dele.

- Ah, é? Ah, é? Pois fique sabendo, seu bosta...

- Calma – repetiu o treinador, que não gostava de se meter em discussão tática.

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O Adrianinho que ficasse sabendo. No último contrato que fizera com o clube estava estipulado: ele não precisava mais se deslocar. Fora a condição para renovar o contrato e continuar fazendo gols e garantindo o bicho de todo mundo. Jogando pelo meio. Jogando ali no território sagrado da sua espécie. E o seu bosta ficasse sabendo que exigira a isenção não porque não tinha mais pernas para se deslocar, mas para preservar a dignidade do ofício. Conquistara aquele privilégio, que um dia todos os centroavantes perto do fim poderiam reivindicar. Pois centroavante que se desloca muito se desmoraliza. Depois de uma certa idade, o deslocamento passa a ser visto como um abandono de território herdado.

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O Adrianinho quis saber se aquilo era verdade. O treinador confirmou que era. O velho centroavante não era obrigado a se deslocar. O Adrianinho que fizesse chegar a bola nele, lá na frente. E no meio, que é lugar de centroavante.

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O Adrianinho e o velho centroavante voltaram para o campo acertados.


Domingo, 1º de maio de 2005.



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